Poesias para crianças de Cecília Meireles









Passarinho no Sapé





P tem papo

o P tem pé.

É o P que pia?

(Piu!)

Quem é?

O P não pia:

O P não é.

O P só tem papo

e pé.

Será o sapo?

O sapo não é.

(Piu!)

É o passarinho

que fez seu ninho

no sapé.

Pio com papo.

Pio com pé.

Piu-piu-piu:

Passarinho.

Passarinho

no sapé.

(Cecília Meireles, 1987, p. 104)








Ciranda


(Cecília Meireles) 







Eu queria ser a rosa
lá-lá-rá-lá-lá-lá-lá,
E, vivendo num jardim,



.


Ter besouros, borboletas,
lá-lá-rá-lá-lá-lá-lá,
Cirandando ao pé de mim ! ...


.


Eu queria ser a praia,
Ló-ló-ró-ló-ló-ló-ló.
Onde as ondas vão brincar;


.


E seria toda a vida,
Ló-ló-ró-ló-ló-ló-ló.
Bem querida pelo mar !


.


Eu queria ser estrela,
Li-li-ri-li-li-li-li,
sendo a noite minha irmã,


.


Para despontar à tarde,
Li-li-ri-li-li-li-li,
E esconder-me de manhã ! ...







As meninas


(Cecília Meireles)







Arabela



abria a janela.


.Carolina


erguia a cortina.


.E Maria


olhava e sorria:


"Bom dia!"


.Arabela


foi sempre a mais bela.


.
Carolina


a mais sábia menina.


.E Maria


Apenas sorria:


"Bom dia!"


.Pensaremos em cada menina


que vivia naquela janela;


uma que se chamava Arabela,


outra que se chamou Carolina.



Mas a nossa profunda saudade


é Maria, Maria, Maria,


que dizia com voz de amizade:


"Bom dia!"










A Língua do Nhem


(Cecília Meireles)




Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.
.E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
.O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também
.a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
.Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,
.e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...
.
De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,
.ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...


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